Paulo Luna

A palavra é traiçoeira, engana o insano e o são. Similar faca a palavra rufa.

Textos

Lafayette e Os Tremendões ou o rock brasileiro começa a ter memória.
A década de 1960 foi certamente marcante no século XX pelo que significou em termos de transformações econômicas, políticas e culturais. Se fôssemos apontar uma trilha sonora para o período, certamente nela estariam presentes guitarras, baixos, baterias e órgãos.  E um músico que, no Brasil, muito contribuiu para a composição dessa trilha foi o tecladista Lafayette, cujos acordes marcantes se fizeram presentes nos mais importantes discos de Roberto Carlos daquela época, como, por exemplo, o órgão que faz a introdução da música Quero que vá tudo pro inferno, ou ainda o solo constante em Não quero ver você tão triste assim, e também, ainda, nos discos de muitos outros artistas vinculados à chamada Jovem Guarda.
A chegada de novos tempos, no entanto, fez com que muitos daqueles acordes deixassem, injustamente, de soar.  Foi o caso de Lafayette que pouco a pouco foi caindo no esquecimento, pelo menos da grande mídia, embora mantivesse um público fiel.
Mas a História, em suas voltas constantes, acabou possibilitando que esse grande músico, esquecido que andava, tocando em bares do subúrbio carioca para sobreviver, fosse ouvido por jovens músicos de gosto musical não contaminado pelo preconceito da crítica e que entenderam na música de Lafayette a maestria dos grandes artistas e o convidaram para realizar alguns shows. O grupo, aliás, muito talentoso, e que já utilizava o nome de Tremendões passou a utilizar o nome de Lafayette e Os Tremendões o que significou uma tripla homenagem, ao Lafayette em si, a Erasmo Carlos que possuía nos tempos da jovem guarda um conjunto de apoio chamado Os Tremendões, e à própria jovem guarda.
Em 19 de abril de 2009, data do aniversário de Roberto Carlos, o grupo realizou um show no Teatro Odisséia, na Lapa, bairro boêmio carioca, no qual homenageou o Rei, interpretando diversas músicas da autoria dele, em especial aquelas da época da jovem guarda. E o que se viu foi um show intensamente vibrante, durante o qual as músicas de Roberto Carlos, muitas delas com mais de 40 anos foram cantadas e dançadas efusivamente por jovens que nem sonhavam em nascer quando tais canções foram gravadas. Lafayette em seu teclado e os Tremendões,  com três guitarras, baixo, bateria e uma vocalista, todos da maior qualidade, atualizaram de forma surpreendente o repertório de Roberto Carlos que, por aquelas injunções de avaliação crítica haviam sido colocadas em dois limbos: o do tempo, aquele que referencia a jovem guarda apenas como passado morto e acabado e não enquanto tradição reinventável,  e o limbo da qualificação que diz ser Roberto Carlos apenas um cantor romântico, quase brega ao qual, por força do clamor popular, se concede a majestade.
De qualquer forma, o show no Teatro Odisséia foi um clarão, pois, além de permitir o sempre saudável encontro de gerações, possibilitou vislumbrar a afirmação de algo que, embora um tanto insólito em termos de rock, é mais do que plausível, pois como já sugere o nome de uma das bandas mais veneradas do rock internacional em todos os tempos, pedras que rolam não criam limo, mas ao rolar as pedras deixam marcas e são essas marcas que possibilitam o continuar a rolar, pois, na cultura humana, e isso vem ficando cada vez mais claro, a existência de uma tabula rasa, ou seja, invenções a partir do nada, desvinculadas de qualquer tradição, nem que seja para negá-la, simplesmente não existem.
E no momento atual, a experiência mais sensata mostra que a revisão é o melhor caminho, a reutilização, o reaproveitamento, ou em termos culturais, a releitura abre possibilidades muito mais amplas do que supunham as vanguardas que no limiar do século XX sonhavam em criar o absolutamente novo, o que, aliás, é uma doce ilusão.
Por isso, demonstrando que sabedoria não tem idade os músicos do grupo Os Tremendões se ajoelharam diversas vezes, ao longo do show, reverenciando o mestre Lafayette, e nessa reverência, olhavam para o passado, apontando para o futuro.
O fenômeno musical do rock and roll começou a sacudir o mundo ocidental na segunda metade da década de 1950, mais precisamente a partir do momento em que Bill Halley e sues Cometas atacaram com Rock around the clock. Um sucesso total que para sempre desestabilizou as bases musicais norte americanas e de diversos outros países por tabela e influência, inclusive essas nossas plagas chamadas de Brasil. Logo em seguida por sinal, o rock aqui chegaria ainda numa adaptação bastante tímida, tanto é que, ouvidas hoje, as baladas do final da década de 1950 ou os boleros e sambas canção do mesmo período podem até mesmo confundir ouvidos mais desavisados, de tanto que se parecem.
A primeira onda do rock nacional que contou inclusive com Rei e Rainha, no caso os irmãos Tony e Cely Campelo parecia que não teria fôlego para ir além dos primeiros anos da década de 1960, tanto é assim que, salvo engano, praticamente somente sobreviveram ao destroçamento pelo tempo umas duas ou três composições do período: Banho de lua, Estúpido cupido e o Biquíni de bolinha amarelinha que vez por outra são de alguma forma relembradas.
A partir de 1965, a música popular brasileira seria abalada de forma estrondosa por um novo acontecimento musical que levou o nome de Jovem Guarda, principalmente porque esse era o nome do programa de televisão que, de certa forma, dava unidade a uma série de músicos que passaram a girar, de uma maneira ou de outra, em torno daquele evento televisivo que, por sinal, durou pouco menos de três anos no ar, de 22 de agosto de 1965 até junho de 1968.
A Jovem Guarda desde aquela época e até hoje é muito mal avaliada pela crítica e pelos estudiosos da música popular pois, de certa maneira, prevaleceu sobre ela certos estereótipos de juízo de valor que tem impedido uma melhor avaliação crítica daquele fenômeno que deitou raízes muito mais profundas do que supõe a vã filosofia da crítica que aponta o que teria ou não qualidade. É por isso que a bossa nova e a Tropicália ganham foros de movimentos musicais de renome e são sempre citados como exemplos de qualificação musical do país, ao passo que, a jovem guarda foi sendo colocada num limbo do tempo, como algo sem maior interesse e que passou sem deixar marcas, salvo as constantes, e nem tão constantes assim, rememorações do evento.
No entanto, se observarmos de uma maneira mais isenta de falsas paixões, vamos verificar que certas classificações pejorativas que foram grudadas na jovem guarda não passam de puro preconceito. Senão, vejamos alguns desses designativos. Um deles é o de ser a jovem guarda uma espécie de vanguarda da música norte americana no Brasil, acusação que os nacionalistas mais empedernidos da  época repetiam de maneira muito mais panfletária do que certamente como fruto de real reflexão. Na verdade, desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial, para não irmos mais atrás, a influência da música norte americana se faz fortemente presente entre nós. Poderíamos citar exemplos como o Fox canção, criado a partir da mistura do Fox norte americano com nosso ritmo mais dolente, a modinha, ou mesmo, o samba canção. A bossa nova por sua vez não é exemplo de música genuinamente nacional, haja vista toda a influência do jazz que ela sempre mostrou. Portanto, se isso fosse um pecado, não seria a jovem guarda a grande pecadora. Aliás, não seria demais lembrar que em 1966, a revista Intervalo publicava uma reportagem que tinha o seguinte título: Jovem guarda declara guerra à bossa nova. Dizia a reportagem:
Como cantor, Erasmo já vendeu 50 mil discos. Como compositor, 700 mil. Já ganhou dois troféus: Roquete Pinto e Chico Viola. A exemplo de Roberto, está entrando nos negócios e logo veremos nas vitrines camisas com seu nome como marca. Ele é um estouro, mas os críticos não querem saber dele. Não comentam seus discos e referem-se ao cantor como mais um integrante da Jovem Guarda debilóide e sub músico. São os fãs da bossa nova que o tratam assim. Ele reage: Em primeiro lugar, se a bossa nova continuar esnobe e tão afastada do povo, vai pifar. Eles são sistematicamente contra nós, mas deveriam atiçar o fogo de sua panelinha, que já está esfriando. Como é que eles têm coragem de falar que nós cantamos versões de músicas estrangeiras, se eles colocaram o jazz na música nacional?
Como se vê, a discussão que era acalorada na época, de certa forma foi resolvida. A crítica, a qual o cantor Erasmo Carlos se referia, conseguiu colocar sua versão dos fatos como a verdade e até hoje a bossa nova é situada no patamar da maior qualidade e a jovem guarda apenas como uma febre juvenil que passou. Bom, mas e o que isso tem a ver com Lafayette e os Tremendões?
O tecladista Lafayette é mais um dos grandes músicos que o Brasil costuma constantemente produzir e que, de maneira geral, passado um momento de sucesso maior, caem no mais total e absoluto esquecimento, sem que suas obras sejam ao menos lembradas. A jovem guarda significou um corte profundo em nossa música popular, porque trouxe para a ordem do dia novas possibilidades instrumentais, harmônicas e temáticas, ou pelo menos nesse último caso, forma diferente de abordar a temática amorosa. E a influência musical da jovem guarda é muito maior do que se pensa, pois seu timbre está presente hoje na música sertaneja, na música nordestina e na sempre (injustamente) execrada música brega.  
Não vamos nem entrar no mérito de determinadas questões, pois, são de tal maneira delicadas, que o espaço desse artigo é por demais limitado para ao menos esboçá-las. Uma coisa me parece certo: o preconceito aberto ou velado é o que dá o tom nessa discussão e, dessa forma, provoca mais distorções do que iluminação.
Mas, voltando ao show de Lafayette e Os Tremendões, sem pregações de verdades, o grupo deu o show, e fez a platéia vibrar e cantar as músicas do Rei Roberto Carlos num ambiente no qual a divisão cultural segmentada da atualidade a princípio não esperaria encontrar ali. Talvez sejam passos em direção a uma revisitação da musicalidade da jovem guarda lhe dando então a devida atenção e qualificação.
Paulo Luna
Enviado por Paulo Luna em 06/05/2009


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